sábado, 14 de julho de 2012

UM LUGAR PARA REPOUSAR


Depois da briga saí correndo. Queria um lugar para refugiar-me e poder soltar aquela dor de angústia e decepção. Não, eu não podia ter visto. Não era real. Eu estava de novo imaginando coisas... Será? Pode ser, mas eu vi os olhares se encontrando por  segundos ... Ele não podia. Definitivamente, não podia. Não agora que eu precisava tanto de atenção. Por quê? Eis a pergunta sem resposta, como quase todas as  que fiz minha vida toda. Todas sem respostas, como eu.
        Caminhei depressa, não queria ser vista, muito menos alcançada. Iria ouvir as mesmas histórias de antes... As  mesmas desculpas, as mesmas palavras, enfim... Tudo  que eu conhecia muito bem... Meus pés doíam, pois o sapato de salto era desconfortável, mas eu não me importava, pois a dor de dentro era muito maior... Sempre fora. Eu sempre preferi o interior das coisas ...  O superficial me enoja .
        De repente, eu vi... Eu vi o local que tantas vezes quisera ir... Que eu almejava, o paraíso para almas como a minha. Olhei em volta, entrei sem que ninguém me visse. Comecei a caminhar e a paz tomou conta de mim... Ah, a paz agora era minha companheira e estava ali sossegando meu coração aflito. As árvores eram imensas, com suas copas que cobriam quase todo o lugar, sem deixar que o sol me tocasse.  Senti-me protegida. As flores, embora artificiais, eram  belas... E sua beleza era quase que uma afronta aos meus sentimentos. O lugar delas não deveria ser ali.
Eu sabia, porém, que não viera atrás do belo, eu viera atrás da dor, da minha dor. Queria senti-la com toda a profundidade que um ser poderia ser capaz, até não poder mais... Até perceber que eu morreria se continuasse, que minha vida teria o seu fim se eu não parasse...Talvez eu interrompesse meu padecer, talvez... As flores sempre estariam ali... Ou eu continuaria até o fim e teria flores só pra mim... Algo belo e meu, só meu, mas sem mais dores.
Caminhei ali dentro por longos minutos, parava às vezes para ver algum nome ou fotografia que chamavam minha atenção. Tirei os calçados e senti a calçada embaixo dos meus pés... Sentia-me viva, embora morta por dentro eu estava. Caminhei também pelo gramado verdejante e me sentia cada vez mais calma. Assim passei boa parte do meu tempo, sem pensar no que havia acontecido. No que eu supostamente teria visto. Estar ali era a melhor coisa que me acontecera nos últimos meses. Olhei para o lado e uma fotografia desbotada pelo tempo chamou minha atenção e eu me aproximei... Sentei-me e fiquei longos minutos observando, eu tinha me esquecido do que me trouxera ali. Na imagem estava um garoto sorrindo. Seu sorriso me causou uma sensação estranha: misto de náusea e vômito.  Presa eu me sentia e percebi que dali não conseguiria sair tão rápido.
Naquele instante, tudo o que guardara rebentou em um enorme choro, choro de dor sufocada por anos, de angústia que não se acaba, de ansiedade que permanece mesmo que eu tome os remédios, choro por mágoas antigas, por perdão que eu não consegui dar, de tristeza que era o sentimento dominante dentro de mim, lágrimas de alguém que ainda vive. Meus soluços poderiam ser ouvidos à distância, mas eu não me importava. Apenas chorava e não queria conter aquele momento. Era meu e de mais ninguém. Eu precisava dele.
Logo que as lágrimas cessaram, olhei novamente a fotografia e senti inveja de sua curta existência. Inveja do que ele poderia ter tido: Como fora sua vida? Com quem viveu? Teve mais momentos de felicidade ou tristeza? Era feliz? De novo as perguntas sem respostas... Era apenas um garoto de 14 anos e sorria...
Olhei novamente a foto, fixamente, como se o menino ali presente me pertencesse. Eu sabia que não era nada meu. Nem poderia tê-lo conhecido, mas daria tudo para trocar de lugar com ele naquele instante. Logo me veio a ideia... E ela não me deixou mais em paz... Não havia como evitar o que estava prestes a acontecer. Eu viera àquele lugar parra isso. Levantei com grande força a lápide, não havia nada a temer... Entrei ali, deitei-me junto aos restos de ossos e me senti mais perto dele, como se seu corpo estivesse próximo à mim. Eu o abraçava agora e ficava tranquila. Finalmente a proteção que tanto desejei. Só ouvi o barulho da lápide se fechando e em meu coração uma oração de agradecimento. Enfim, eu estava junto dele. Eu conseguira. Já estava ficando sem ar, mas isso não me apavorava, pelo contrário, era sinal de que mais perto eu estava.
Tudo ficou escuro, meus olhos aos poucos iam se fechando e meu corpo começava a ficar dormente Eu não sentia mais nada, só as batidas de meu coração diminuindo. Nos meus últimos segundos ainda pensei: Lá fora não terá nenhuma fotografia minha e eu jamais receberia flores. 

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